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O fim do profissional pronto: por que as empresas precisarão contratar pelo potencial, e não apenas pela experiência

Durante muito tempo, uma das principais perguntas feitas em um processo seletivo era simples:

“O que essa pessoa já fez?”

Quanto mais anos de experiência, mais cursos, mais conhecimentos específicos e mais familiaridade com determinada função, maior parecia ser o valor daquele candidato.

A lógica fazia sentido.

Se uma empresa precisava contratar um analista, procurava alguém que já tivesse trabalhado como analista. Se precisava de um coordenador, buscava alguém que já tivesse coordenado equipes. Se precisava de um profissional que dominasse determinada ferramenta, procurava alguém que já tivesse experiência nela.

O problema é que o mercado de trabalho está mudando mais rápido do que os currículos conseguem acompanhar.

Uma competência que era altamente valorizada há poucos anos pode perder relevância. Uma ferramenta pode ser substituída. Um processo pode ser automatizado. Uma função pode ganhar novas responsabilidades.

E, nesse cenário, surge uma pergunta cada vez mais importante para o recrutamento:

a experiência passada ainda é a melhor maneira de prever o desempenho futuro?

Talvez não.

O profissional pronto está ficando cada vez mais raro

Existe uma expectativa comum no mercado de que o candidato ideal seja aquele que chega à empresa praticamente pronto.

Ele conhece os processos.

Domina as ferramentas.

Tem experiência no setor.

Já enfrentou problemas semelhantes.

Conhece a rotina da função.

Precisa de pouco treinamento.

Mas essa expectativa começa a entrar em conflito com uma realidade: as próprias funções estão mudando rapidamente.

O Fórum Econômico Mundial, em seu Future of Jobs Report 2025, estima que cerca de 39% das competências essenciais exigidas no mercado de trabalho deverão mudar até 2030. O relatório também aponta que 63% dos empregadores consideram a lacuna de competências um dos principais obstáculos para a transformação dos negócios.

Isso significa que contratar alguém exclusivamente porque essa pessoa domina aquilo que a empresa precisa hoje pode não ser suficiente.

A pergunta passa a ser:

e se amanhã a empresa precisar de algo diferente?

Experiência continua importante. Mas talvez não seja suficiente.

Isso não significa que a experiência profissional perdeu valor.

Muito pelo contrário.

Experiência continua sendo uma fonte importante de conhecimento, repertório e capacidade de tomada de decisão.

O problema está em transformar experiência em sinônimo de potencial.

Uma pessoa pode ter dez anos de experiência fazendo exatamente a mesma coisa.

Outra pode ter três anos de experiência, mas ter passado por mudanças constantes, aprendido novas ferramentas, assumido projetos diferentes e desenvolvido capacidade de adaptação.

Quem está mais preparado para o próximo desafio?

Não existe uma resposta automática.

E é justamente essa dificuldade que está fazendo o recrutamento olhar para uma dimensão que durante muito tempo recebeu menos atenção:

o potencial.

Potencial é diferente de “promessa”

Quando falamos em contratar pelo potencial, não estamos falando em contratar alguém sem preparo e simplesmente esperar que essa pessoa aprenda tudo depois.

Potencial não significa ausência de competência.

Significa observar competências que indicam capacidade de evolução.

Curiosidade.

Capacidade de aprender.

Pensamento crítico.

Adaptabilidade.

Resolução de problemas.

Autonomia.

Capacidade de receber feedback.

Flexibilidade diante de mudanças.

Essas características podem ser tão importantes quanto o domínio de uma ferramenta específica.

O Fórum Econômico Mundial coloca entre as competências que mais devem ganhar importância nos próximos anos não apenas habilidades tecnológicas, mas também pensamento criativo, resiliência, flexibilidade, agilidade e curiosidade associada à aprendizagem contínua.

Ou seja:

o mercado não está escolhendo entre competência técnica e competência humana. Está exigindo as duas.

A pergunta “você já fez isso?” pode não ser suficiente

Imagine uma empresa procurando alguém para trabalhar com uma ferramenta que acabou de ser incorporada ao negócio.

Um candidato possui cinco anos de experiência utilizando a ferramenta.

Outro nunca trabalhou diretamente com ela.

Em uma seleção tradicional, o primeiro candidato provavelmente sairia na frente.

Mas imagine que, durante a entrevista, o segundo candidato demonstre que aprendeu três ferramentas diferentes nos últimos anos, participou de projetos de implementação, estudou por conta própria e costuma aprender rapidamente novos sistemas.

Agora a análise muda.

O primeiro candidato apresenta experiência comprovada.

O segundo apresenta capacidade comprovada de aprender.

Qual deles será melhor?

Depende da vaga.

Mas, em ambientes que mudam rapidamente, a segunda característica pode ter um peso muito maior do que tinha no passado.

A contratação pelo potencial muda a pergunta do recrutador

Se o recrutamento tradicional pergunta:

“Essa pessoa já sabe fazer?”

Um recrutamento orientado ao potencial começa a perguntar:

“Essa pessoa consegue aprender a fazer?”

E existe uma diferença enorme entre as duas perguntas.

A primeira olha principalmente para o passado.

A segunda tenta projetar o futuro.

Isso muda inclusive a maneira como as entrevistas são conduzidas.

Em vez de perguntar apenas sobre atividades que o candidato já executou, o recrutador pode apresentar situações novas e observar como ele pensa.

Como resolveria um problema que nunca enfrentou?

Como buscaria uma informação que desconhece?

O que faria se recebesse uma tarefa para a qual não estivesse preparado?

Como reage quando recebe um feedback difícil?

Como aprendeu algo complexo recentemente?

Essas perguntas não procuram apenas conhecimento.

Procuram capacidade de aprendizagem.

A entrevista deixa de ser uma prova de memória

Esse é um ponto importante.

Se o mercado está mudando rapidamente, não faz tanto sentido avaliar apenas quanto o candidato consegue reproduzir aquilo que já aprendeu.

É necessário entender como ele reage quando o conhecimento que possui deixa de ser suficiente.

Imagine um profissional diante de um problema completamente novo.

Ele trava?

Espera alguém explicar exatamente o que fazer?

Procura informações?

Testa possibilidades?

Pede ajuda?

Analisa o problema antes de agir?

Aprende com o erro?

Esses comportamentos dizem muito sobre o potencial profissional.

E não aparecem necessariamente em um currículo.

O currículo pode esconder justamente quem tem potencial

O currículo é excelente para organizar uma trajetória.

Mas ele possui uma limitação: é construído principalmente a partir do passado.

Cargo.

Empresa.

Formação.

Cursos.

Experiências.

Resultados.

Certificações.

Tudo isso é importante.

Mas existe uma pergunta que o currículo dificilmente responde:

“O que essa pessoa será capaz de fazer daqui a três anos?”

Essa é uma das razões pelas quais a avaliação por competências vem ganhando espaço.

O foco deixa de estar exclusivamente no que o candidato já fez e passa a considerar também como ele pensa, aprende e se comporta diante de situações profissionais.

Isso é especialmente importante quando a vaga envolve conhecimentos que ainda estão em transformação.

A inteligência artificial acelera essa mudança

A inteligência artificial tornou essa discussão ainda mais urgente.

Ferramentas de IA estão assumindo ou transformando diversas tarefas profissionais, enquanto novas funções e novas exigências surgem.

O World Economic Forum aponta que AI e big data estão entre as competências de crescimento mais rápido até 2030, acompanhadas por redes e cibersegurança e alfabetização tecnológica. Ao mesmo tempo, competências como pensamento criativo, resiliência e aprendizagem contínua também aparecem entre as que mais ganham importância.

Isso cria uma situação curiosa.

Uma empresa pode contratar alguém extremamente competente para utilizar uma determinada tecnologia.

Mas, se essa tecnologia mudar daqui a dois anos, o que acontece?

O profissional que apenas domina a ferramenta pode perder parte de sua vantagem.

Já aquele que sabe aprender novas ferramentas pode continuar evoluindo.

Por isso, a capacidade de aprender começa a funcionar quase como uma “competência invisível”.

Ela não aparece necessariamente na descrição do cargo.

Mas pode determinar quanto tempo aquela pessoa continuará sendo relevante.

A habilidade mais importante pode ser aprender

O LinkedIn destacou, em seu Workplace Learning Report 2025, a aprendizagem contínua como uma competência fundamental diante da transformação das habilidades profissionais. O levantamento aponta que 91% dos profissionais de aprendizagem e desenvolvimento consultados consideram o aprendizado contínuo mais importante do que nunca para o sucesso profissional.

O dado ajuda a explicar uma mudança importante.

Durante muito tempo, a formação era vista como algo que acontecia antes do trabalho.

A pessoa estudava.

Depois se formava.

Então entrava no mercado.

Agora, esse ciclo praticamente desapareceu.

O profissional precisa aprender durante a carreira inteira.

Aprender uma nova ferramenta.

Aprender um novo processo.

Aprender uma nova forma de trabalhar.

Aprender a trabalhar com inteligência artificial.

Aprender a lidar com novos perfis de clientes.

Aprender a assumir responsabilidades diferentes.

Nesse contexto, talvez a principal vantagem competitiva de um profissional não seja aquilo que ele sabe hoje.

Pode ser a velocidade com que consegue aprender aquilo que ainda não sabe.

E isso muda também a responsabilidade das empresas

Contratar pelo potencial não significa jogar toda a responsabilidade no candidato.

Se uma empresa quer profissionais capazes de aprender, ela também precisa criar um ambiente onde aprender seja possível.

Isso envolve treinamento, feedback, liderança preparada, mobilidade interna e oportunidades reais de desenvolvimento.

O LinkedIn encontrou uma relação importante entre desenvolvimento de carreira e preparação para novas competências: organizações classificadas como “career development champions” apresentam maior maturidade em desenvolvimento profissional e também maior avanço na adoção de inteligência artificial.

Ou seja, não basta encontrar pessoas com potencial.

É preciso desenvolver esse potencial depois da contratação.

O novo talento pode não ser o mais pronto

Essa talvez seja a parte mais difícil para os gestores.

Existe uma sensação de segurança em contratar alguém que já conhece tudo.

A pessoa chega e sabe executar.

O treinamento é menor.

A adaptação parece mais rápida.

Mas essa segurança pode ser ilusória.

Porque uma contratação baseada exclusivamente na experiência pode resolver perfeitamente o problema de hoje e não necessariamente o problema de amanhã.

Já um profissional com alta capacidade de aprendizagem pode precisar de mais desenvolvimento inicialmente, mas apresentar maior capacidade de acompanhar mudanças.

Isso não significa abandonar a experiência.

Significa equilibrá-la com uma pergunta mais estratégica:

“O que essa pessoa pode se tornar dentro da empresa?”

Potencial também pode ajudar a ampliar o acesso a oportunidades

Existe outro efeito importante.

Quando as empresas exigem experiências extremamente específicas para praticamente todas as vagas, acabam restringindo o acesso a profissionais que possuem competências transferíveis.

Um candidato pode nunca ter ocupado exatamente aquele cargo, mas ter desenvolvido habilidades que podem ser aplicadas à nova função.

Por exemplo, alguém que nunca ocupou formalmente uma posição de liderança pode ter experiência coordenando projetos.

Uma pessoa que nunca trabalhou em determinada área pode ter desenvolvido forte capacidade analítica em outro setor.

Um profissional que nunca utilizou determinada ferramenta pode ter histórico comprovado de aprendizagem rápida de tecnologias.

Quando o recrutamento olha apenas para títulos de cargos anteriores, essas possibilidades podem desaparecer.

Quando olha para competências, elas começam a aparecer.

O futuro do recrutamento pode ser menos sobre encaixar pessoas em vagas

Durante muito tempo, o objetivo do recrutamento foi encontrar alguém que correspondesse à descrição do cargo.

Era quase como montar um quebra-cabeça.

A empresa tinha uma vaga.

Criava os requisitos.

Procurava uma pessoa que correspondesse a eles.

Mas, em um mercado em transformação, talvez seja necessário pensar de outra maneira.

Em vez de procurar apenas quem corresponde perfeitamente ao cargo de hoje, as empresas precisam considerar quem consegue evoluir junto com o cargo.

Isso é especialmente relevante para organizações que estão crescendo, digitalizando processos ou passando por mudanças estratégicas.

Porque a vaga de hoje pode não ser exatamente a mesma daqui a dois anos.

Como identificar potencial em um processo seletivo?

Não existe uma fórmula única.

Mas algumas estratégias podem tornar essa avaliação mais consistente.

Entrevistas baseadas em situações reais

Perguntar como o candidato enfrentou problemas, mudanças e aprendizados ao longo da carreira.

Estudos de caso

Apresentar um problema que exige raciocínio e observar como a pessoa estrutura a solução.

Avaliações práticas

Verificar não apenas o que o candidato afirma saber, mas como transforma conhecimento em ação.

Perguntas sobre aprendizagem

Investigar algo novo que o candidato aprendeu recentemente e como fez para aprender.

Avaliação de competências comportamentais

Observar características como adaptabilidade, pensamento crítico, autonomia e capacidade de colaboração.

Análise de trajetória

Não olhar apenas para os cargos ocupados, mas para a evolução das responsabilidades e competências adquiridas.

O objetivo não é prever o futuro com precisão.

Isso seria impossível.

O objetivo é obter evidências melhores sobre a capacidade de evolução daquele profissional.

Contratar pelo potencial não significa contratar qualquer pessoa

Esse cuidado é essencial.

Existe uma interpretação equivocada de que, ao valorizar potencial, as empresas deveriam simplesmente reduzir os requisitos das vagas.

Não é isso.

Uma posição técnica continua exigindo conhecimentos técnicos.

Uma função regulatória continua exigindo conhecimento específico.

Um cargo de liderança continua exigindo competências de gestão.

A diferença está em entender quais requisitos são realmente indispensáveis e quais podem ser desenvolvidos.

Essa distinção pode ampliar consideravelmente o número de profissionais considerados sem reduzir a qualidade da seleção.

Talvez o melhor candidato seja aquele que ainda não parece perfeito

Essa ideia pode parecer contraditória.

Mas talvez seja justamente esse o ponto.

Em um mercado de trabalho que muda constantemente, o candidato que corresponde perfeitamente a todos os requisitos de hoje pode não ser necessariamente o profissional mais preparado para amanhã.

Enquanto isso, alguém que apresenta boa base, curiosidade, capacidade de aprendizagem e disposição para evoluir pode construir competências que a empresa ainda nem sabe que precisará.

O desafio está em reconhecer esse potencial.

E isso exige um recrutamento mais cuidadoso.

Mais estratégico.

Mais baseado em evidências.

Menos dependente de palavras-chave.

O futuro pertence a quem consegue continuar aprendendo

O mercado de trabalho não está ficando mais simples.

Novas tecnologias surgem.

Funções mudam.

Empresas reorganizam processos.

Competências perdem valor enquanto outras aparecem.

Nesse cenário, a ideia de “profissional pronto” começa a perder força.

Não porque a experiência deixou de importar.

Mas porque ninguém estará completamente pronto para tudo aquilo que o futuro vai exigir.

As empresas precisarão contratar pessoas capazes de evoluir.

Os profissionais precisarão demonstrar não apenas o que sabem, mas como aprendem.

E o RH terá um papel central nessa transformação: deixar de procurar somente quem já possui todas as respostas e começar a identificar quem possui capacidade para construir novas respostas quando as antigas deixarem de funcionar.

Talvez a pergunta mais estratégica de uma entrevista daqui para frente não seja:

“Você já fez isso antes?”

Mas:

“Quando você ainda não sabe fazer alguma coisa, o que você faz para aprender?”

Porque, em um mercado em que as mudanças acontecem cada vez mais rápido, a experiência pode mostrar de onde uma pessoa veio.

Mas é o potencial que pode indicar até onde ela consegue chegar.

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